Thursday, August 11, 2016

Fora Temer, Volta Dilma... 31s July 2016

Lindbergh Farias talks to the crowd at Largo da Batata, Pinheiros. 
Myself & Senator Lindbergh Farias marching forward...
the Blogger & Mr. Farias marching on... 31st July 2016. 
a little vomiting on usurper Temer; Senator Lindbergh Farias on the CPTM train after the rally.

Sunday, August 7, 2016

Carlos Lacerda seen by Luis Nassif

Trinta anos sem Lacerda - 10 Junho 2007

Os 30 anos da morte de Carlos Lacerda passaram em branco. Foi em 21 Maio 1977. O maior carbonário da política brasileira, o homem de extraordinária cultura e eloquência, o jornalista que derrubou 2 presidentes, que quase chegou a presidente do Brasil não foi esquecido. Mas o aniversário de sua morte foi ignorado. 

Há muitos Lacerdas a se analisar. O golpista, que tentou montar um dossiê falso, a Carta Brandi, que supostamente mostraria a conspiração de Jango com Perón para implantar uma 'república sindicalista' no Brasil. O erudito, que rivalizava com San Thiago Dantas no posto de mais brilhante político brasileiro do seu tempo. O orador extraordinário, que conseguiu deixar mal Roberto Campos (denominado maldosamente de Bob Fields pelo pessoal d' O Pasquim) em debate sobre a estabilização econômica. O líder carismático, que fazia com que jovens voluntários se dispusessem a ser seus guarda-costas. O amigo de André Maurois (romancista e ensaísta francês 1885-1967), André Malraux (escritor francês 1901-1976).

Aliás, aqueles tempos eram tão civilizados que dos anos 1920 a 1960 a política brasileira conviveu com apenas 3 dossiês falsos: as 'cartas' de Arthur Bernardes, que criaram problemas com os militares; o 'Plano Cohen', escrito por Olympio Mourão Filho, que serviu de pretexto para a decretação do Estado Novo em 1937; e a Carta Brandi, de Lacerda. Perto da profusão de dossiês de hoje, eram tempos quase angelicais.

Parte relevante sobre a vida de Lacerda está nos arquivos de Fernado Velloso, seu ex-advogado que, antes de morrer, doou ao Fernando Moraes.

Lacerda foi um furacão em permanente erupção a vida toda. Ceda ainda, rompeu com o pai Mauricio Lacerda, por ter se separado de sua mãe, Olga Werneck de Lacerda. Ficou rompido quase toda sua vida com o irmão Mauricio, porque este tomara o lado do pai. Reconciliou-se apenas perto do fim.

Uma faceta murmurada, mas pouco divulgada de Lacerda, era seu homossexualismo. Lacerda era um animal sexual, no sentido amplo do termo. Os psicólogos poderão discorrer melhor sobre essa força da natureza que joga a sexualidade como seiva para o trabalho, as batalhas políticas e os embates amorosos.

Tinha 1,82 metro de altura, mas, quando se levantava da mesa, e se apoiava, parecia ter duas vezes mais. Nesses momentos chegava a ser ameaçador. E era essa presença, com uma retórica empecável, que intimidava os adversários.

O jovem Carlos Lacerda teve muitas paixões. Em 1952 foi incumbido pelo 'Diário Carioca' de cobrir a campanha de Eisenhower, nos Estados Unidos. Pegou avião, mas parou em Belém do Pará onde ficou por vários meses, apaixonado por uma prima.

Tempos depois, parecia apaixonado por Maria Fernanda, atriz filha da poetisa Cecília Meirelles. O jogo era mais complexo. O jovem Carlos Lacerda havia se apaixonado pela própria Cecília, 30 anos mais velha, quando foi sua foca, provavelmente no 'Observador Econômico', revista de economia em que ela trabalhou entre 1936 e 1938. Poderosa, inatingível, a poetiza deu-lhe apenas atenção. Muitos anos depois, aproximou-se de Maria Fernanda, para ficar próximo de um parente dela, por quem ficou perdidamente apaixonado, sem ter sido correspondido.

Em um livro esgotado, 'O Livro de Antonio' (José Olympio, 1974), o romancista Antonio Carlos de Vilaça narra uma cena na fazenda Bocaina, de Severo Gomes, de um Lacerda desesperado de paixão.

Tudo era suportado estoicamente por dona Letícia, sua esposa. Se não era fácil ser amigo de Lacerda, devido ao seu temperamento instável, explosivo, muito menos ser esposa.

Dona Letícia foi uma moça bonita, irônica, inteligente, culta e absolutamente discreta em público. Padecia de uma surdez crônica, que a levou até a Suíça para se tratar. Quinze dias depois da morte de Lacerda, um grupo de amigos foi almoçar com ela no Rócio, a chácara que tinham em Petrópolis. No meio do almoço, uma das senhoras comentou alguma coisa e dona Letícia respondeu. João Condé, jornalista cultural, mostrou-se surpreso: 'Ora, Letícia, você não tinha problemas de audição?' E ela: 'Com 15 dias da morte do Carlos, já posso começar a ouvir de novo."

Foi a esposa dedicada a vida toda. Aos amigos costumava dizer que era a única mulher nascida em Valença-RJ que tinha lido toda a Enciclopédia Britânica. Depois contava, gozadora, que Lacerda chegava todo dia à noite, depois de jantar no Neno, sentava-se na cadeira de balanço que foi de seu avô, e passava horas reclamando das pessoas e da política. E dona Letícia ao lado... lendo a Enciclopédia para desanuviar.

Apesar das constantes aventuras, apenas uma vez Lacerda saiu de casa, um mês antes de sua morte. Ficou na casa do amigo Fernando Delamare, mas voltou a tempo de morrer em casa.

Sua carreira política terminou um pouco antes de sua morte, quando o SNI infiltrou um agente bonitão como jardineiro de sua casa em Petrópolis, que acabou gravando uma cantada dele.

crônica de Luis Nassif, publicada na Folha de S.Paulo em 10 Junho 2007 e parte da coletânea 'A casa da minha infância', publicada pela Editora Agir em 2008.