Tuesday, April 24, 2012

MIGUEL GUSTAVO


Miguel Gustavo ao lado da esposa Sagramor de Scuvero e filha Ana Maria em 1954.

Miguel Gustavo Werneck de Souza Martins nasceu em 24 Março 1922, no Rio de Janeiro-DF.

Estreou como discotecário da Radio Vera Cruz, passando logo a redator e locutor. Passou para a Radio Globo lá ficando até 1954.

Em 1950 começou a compor anúncios musicados, conhecidos como 'jingles' - de grande sucesso como o da Casas da Banha, baseado na melodia de 'Jesus, alegria dos homens', de Bach. 

'Ai Tatú, Tatuzinho, me abre a garrafa e me dá um pouquinho' talvez seja seu mais famoso jingle junto com o do Leite Glória.

Casou-se com Sagramor de Scuvero, radialista popular que se identificou muito com o Presidente Getúlio Vargas, tendo sido eleita vereadora pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) em 1954.

'Primeiro amor', interpretada por Luiz de Carvalho, Os Tocantins e Dilu Mello foi sua primeira composição gravada na Continental e lançada em julho 1946

Em 23 setembro 1947, Ataulfo Alves gravou na Victor o samba 'O que é que eu vou dizer em casa?', de sua autoria e Miguel Gustavo.

Em 1952 compôs 'A valsa da vovozinha' em parceria com Juanita Castilho e Edmundo de Souza, gravada por Carlos Galhardo

Ainda em 1952, compôs com Celestino Silveira, seu companheiro de Radio Globo, as canções 'Trigueirinha' e 'Pregões de Portugal', escritas após uma viagem de Celestino fez à Portugal. 

Em 1953 foi a vez de 'É sempre o papai', baião que Zezé Gonzaga gravou na Sinter e Marlene na Continental.

Em 1955 teve início o ciclo de crítica ao 'Café Soçaite' onde ele ridiculariza os personagens que freqüentavam as colunas sociais de Jacinto de Thormes e Ibrahim Sued. 


Sagramor de Curvelo & Miguel Gustavo.

Miguel Gustavo compôs 'Café soçaite' para Jorge Veiga, que estourou nas paradas.

link para ler crítica sobre o 10" do Jorge Veiga: 
http://toque-musical.blogspot.com/2010/06/jorge-veiga-cafe-socaite-em-ritmo-de.html

Jorge Veiga & columnist Ibrahim Sued.

Em 1957, compôs 'Fanzoca do radio', que Carequinha gravou para o Carnaval. 

Em 1960 chegou ao primeiro lugar absoluto com 'E daí?' para Isaurinha Garcia, seu maior sucesso. Juntou-se à ala que lutou pela eleição de João Goulart para a vice-presidência do Brasil e compôs o jingle político mais famoso de todos: 'Vamos Jangar'!

Em 1962 emplacou 'Brigitte Bardot' com Jorge Veiga - não só sucesso no Brasil, mas na Itália e Europa.

Em 1963, devido ao grande sucesso de 'O Rei do Gatilho', samba-de-breque que fêz especialmente para Moreira da Silva, continuou sua parceria com ele em 'O último dos Mohicanos', 'Os Intocáveis', 'Morangueira contra 007' e 'O conto do pintor'.

Em 1970, Miguel Gustavo compôs 'P'ra frente Brasil', um hino ufanístico glorificando a Seleção Brasileira de Futebol que acabou ganhando o Campeonato Mundial do Mexico. Como o Brasil era governado por uma Ditadura Militar, Miguel Gustavo acabou sendo identificado como defensor da Ditadura.

Outros sucessos de Miguel Gustavo:

'Partido baixo do partido alto' e 'Achados e perdidos' - Elizeth Cardoso
'Carnaval p'ra valer' - Dircinha Baptista
'Independência ou morte' - Jorge Veiga
'Per omnia saecula saeculorum, amen' - Carminha Mascarenhas
'O samba do crioulo' - Jorge Veiga
'Stanislau Ponte Preta' - Lina Baptista / Jorge Veiga e
'Conselho inútil' - Aracy de Almeida
Miguel morreu em 22 Janeiro 1972, aos 49 anos.

Miguel Gustavo escreveu o 'jingle' 'Vamos Jangar' para a campanha vitoriosa da vice-presidência de João Goulart em 1960.

FANZOCA DO RADIO

Ela é fã da Emilinha
não sai do Cesar de Alencar
grita o nome do Cauby [Cauby!]
e depois de desmaiar

pega a Revista do Radio
e começa a se abanar

É uma faixa aqui, outra faixa alí
o dia inteirinho ela não faz nada
enquanto isso, na minha casa
ninguém arranja uma empregada

pega a Revista do Radio
e começa a soletrar

é uma letra aqui, outra letra alí
o dia inteirinho ela não faz nada
enquanto isso, na minha casa
ninguém arranja uma empregada.

Marcha para o Carnaval de 1957, cantada pelo palhaço Carequinha, acompanhado da banda do Altamiro Carrilho, mostra um Miguel Gustavo totalmente alinhado ao pensamento escravagista da classe dominante brasileira.

A 'Fanzoca do Radio', no caso, eram as 'macacas-de-auditório', termo pejorativo usado por certo segmento racista da classe média para caracterizar as moças, geralmente pardas ou negras, que faziam filas na porta da Radio Nacional do Rio de Janeiro para assistirem aos programas de auditório irradiados para todo o Brasil, nos anos 40 e 50.

Miguel Gustavo achava que aquilo era um 'desperdício de tempo', e aquelas 'macacas' seriam de melhor serventia se fossem trabalhar como servas em sua casa ou de alguma outra família branca. A fanzóca desmaia e se abana com a Revista do Radio, que ela, mal lê, pois não sabe siquer soletrar.


'O dia do papai' written by Miguel Gustavo was recorded by Marlene, printed at 'Correio da Manhã' - 25 July 1954.

Miguel Gustavo - uma de suas ultimas fotos - sucesso de Jorge Veiga no mundo inteiro.



Miguel Gustavo com a palavra: falando de coisas sérias como arte, política, ideias etc.

Revista do Radio, 23 October 1954.

O que acha da situação atual no Brasil, no terreno economico?
- É excelente!
Que acha da poesia moderna?
- É impossivel responder rapidamente. E há muita confusão nesse estabelecimento. Come em certas reivindicações populares das quais os comunistas se aproveitam para firmar posição, também na inelutável evolução poética houve 'analfabetos' que entraram no meio de 'alfabetizados' como Manuel Bandeira e outros poucos e criaram a dúvida na renovação que se iniciava. Mas a poesia dos nossos tempos (moderna é apelido) tem coisas muito grandes.

Acredita na evolução política do Brasil?
- Isso é evidente. Ou o senhor queria que involuísse?
Devemos reatar as relações comerciais com a Russia?
- Quem não deve não teme. Acho que deveríamos reatar todas as relações: comerciais, artísticas, políticas, culturais, pelo menos até o dia em que eles começassem abertamente a abusar dessas relações e isso se mostrasse contra os interesses brasileiros.
Qual a maior personalidade atual de todo mundo?
- Carlos da Silva Rocha.

Você gosta de pintura moderna?
- Depende da moldura.
Sua opinião sobre Portinari?
- Um mestre, principalmente na arte de viver. Grande pintor, conseguiu fazer má pintura para servir ao gosto semi-tonado de uma falsa elite. Portinari, a meu ver, nunca acreditou naqueles pés espalhados, naqueles olhos enormes, naqueles braços com penas de arara e abóboras roxas e cabeças de piolho. A estas horas, escondido, como criança que furta doce, Portinari deve fazer belas rosas iguais às rosas e belas mulheres com jeito mesmo de mulheres belas. Depois rasga. E lambe os dedos.
Qual o maior problema do Governo brasileiro?
- Acho que nem mesmo o sr. Getulio Vargas responderia certa a esta pergunta. Não há maior problema. Há uma série. O Brasil é curso completo de matemática.

Assistiremos a uma nova Guerra Mundial?
- Mas é lógico. E nem poderia ser diferente. Como é que se iam renovar as coisas? As máquinas? As ideias? Os problemas? Quem estimula isso, senão a guerra?
Tem opinião sobre Perón?
- Nem sobre Perón, nem sobre ninguém.

Quais os escritores que mais aprecia?
- Vargas Vila, Pitigrili,Guareschi e alguns outros que formam naquilo que minha mulher considera o segundo time da literatura universal.
Algum deles influiu na sua formação intelectual?
- Não tenho formação intelectual. Sou um sujeito que, de vez em quando, acerta um verso, um texto, um 'jingle' ou um canção, do mesmo modo que muita gente acerta no bicho ou na loteria.
E em música, quais são suas preferências?
- Uma sinfonia que tenho na cabeça mas ainda não tive talento p'ra tirar. A 'Sinfonia do Nada'. A musica produzida pela tristeza doente da voz de Amália Rodrigues, Aracy de Almeida, Nora Ney, Elizeth Cardoso e, sem doença e tristeza, aquela que sai da garganta cabocla de Sylvio Caldas.

Qual a pagina musical mais triste que conhece?
- Não sei direito. No carnaval até a marcha-rancho pode cheirar a nostalgia. Mas nos dias cinzentos-de-chuva-no-vidro, tédio e inquietude, não sei quantas lágrimas posso juntar com a ligação dos 'dós sustenidos' e das notas graves.
E a mais alegre?
- 'Parabéns a você', cantada em aniversário de criança.

Acredita na eternidade da alma?
- Com toda esperança e devoção.
Entre os filósofos qual o que mais o satisfaz?
- Raul de Leoni. Era filósofo e ainda rimava.
A religião é uma necessidade?
- Se o Ibope fizesse uma investigação nesse sentido, nenhuma firma americana dirigiria anúncios aos ateus. A média obtida não compensaria. Eu só conheço um, que, assim mesmo, só é ateu durante o dia. A religião não é só uma necessidade. É um fato.
Acredita que o Espiritismo afete o prestígio do Catolicismo?
- Não. Do mesmo modo que a classe histórica de Zizinho não afeta o prestígio de Fausto ou Domingos. Cada um na sua posição.

Qual o maior invento humano?
- Eu queria dizer que é a eletricidade, mas eletricidade não é invento, é descoberta. Radio, também. Não sei, não.
Qual o mais belo sentimento humano?
- Amor. Mas amor bastante. Amor total. Amor fim.
Acredita que a ciência possa vencer a morte?
- Não, tudo o que existe é necessário. A não ser que Deus já esteja cansado deste ritmo e queira mudar a forma.
Como define a felicidade?
- Poderia inventar muitas mentiras sobre isso e fazer muita literatura. Felicidade é aquilo que vem do improviso, as vezes, num gesto, num beijo e até numa lágrima. Acho que é um negocio que até eu já senti algumas vezes.
Miguel Gustavo bares his soul at Revista do Radio.
Miguel Gustavo travels to Europe in 1958 and tells it all. 

2 comments:

  1. Gostaria de saber sobre as músicas que Miguel Gustavo fez para o disco do Carequinha chamado Heróis do Carequinha.

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    1. Olá, Esperanto... infelizmente não consegui informação sobre esse disco. Vou continuar procurando...

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